Artigo Técnico
As ERPI como espaços de cuidados de saúde:
um debate que já não pode ser adiado
Por Filipe Macedo | 13 abril 2026
Durante décadas, as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) foram sobretudo concebidas como respostas sociais destinadas a garantir alojamento e apoio básico. Essa visão foi compreensível num determinado contexto demográfico. Hoje, porém, tornou-se claramente insuficiente.
O perfil das pessoas institucionalizadas mudou profundamente. Em Portugal, o aumento da esperança média de vida, a existência de outras respostas sociais — como centros de dia ou apoio domiciliário — e o elevado custo de vida fazem com que muitas famílias adiem a institucionalização até fases mais avançadas da perda de autonomia. Quando esta ocorre, surge frequentemente associada a níveis elevados de fragilidade clínica.
As ERPI acolhem hoje pessoas mais idosas, com maior dependência funcional, múltiplas comorbilidades, deterioração cognitiva ou demência e necessidade de gestão terapêutica complexa. A polimedicação, o risco de quedas, as infeções, as úlceras por pressão ou os episódios de descompensação clínica fazem parte do quotidiano destas instituições. Muitos destes episódios acabam por resultar em hospitalizações potencialmente evitáveis.
Perante esta realidade, a questão já não é saber se nas ERPI se prestam cuidados de saúde. Esses cuidados existem, são necessários e acontecem todos os dias. As verdadeiras questões são outras: como estão organizados, com que recursos e com que grau de integração no sistema de saúde?
Ignorar esta transformação significa manter modelos institucionais desenhados para uma realidade que já não existe. Significa também aumentar a fragmentação de cuidados e transferir pressão para outros níveis do sistema, nomeadamente para os serviços hospitalares.
Na prática, muitas ERPI funcionam já como contextos de cuidados de saúde de baixa intensidade, mas de elevada continuidade. Contudo, continuam frequentemente enquadradas por modelos organizacionais e de financiamento que não refletem essa função assistencial. Esta dissociação entre necessidades e enquadramento institucional gera ineficiências, fragiliza a qualidade dos cuidados e dificulta a resposta adequada às necessidades dos residentes.
A evidência científica internacional é clara: a qualidade dos cuidados em estruturas residenciais está associada à presença regular de equipas de saúde qualificadas e bem integradas. Modelos que asseguram vigilância clínica, gestão adequada da terapêutica e articulação eficaz com os cuidados de saúde primários e hospitalares apresentam melhores resultados em termos de segurança, estabilidade clínica e qualidade de vida.
Neste contexto, os cuidados de saúde nas ERPI devem ser assumidos como uma componente estrutural da resposta assistencial. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde desempenham um papel essencial na avaliação clínica, no acompanhamento da doença crónica e na prevenção de complicações. A enfermagem, em particular, assegura frequentemente a continuidade dos cuidados e a monitorização diária do estado de saúde dos residentes.
Um dos principais desafios organizacionais reside na ambiguidade do posicionamento das ERPI entre o setor social e o setor da saúde. Esta indefinição traduz-se, frequentemente, em rácios de profissionais desajustados, financiamento insuficiente face à complexidade assistencial e dificuldades persistentes de articulação com o Serviço Nacional de Saúde.
Clarificar o papel das ERPI no continuum de cuidados de longa duração é, por isso, uma prioridade. Tal implica definir requisitos mínimos de cuidados de saúde, ajustar os recursos humanos ao grau de dependência dos residentes e reforçar os mecanismos de coordenação com os cuidados de saúde primários, hospitais e rede de cuidados continuados.
Integrar cuidados de saúde estruturados nas ERPI não significa medicalizar excessivamente estes contextos. Significa, simplesmente, adequar os cuidados às necessidades reais das pessoas que lá vivem.
Conclusão
As ERPI são hoje, de facto, espaços onde se prestam cuidados de saúde. Reconhecer esta realidade não é apenas uma questão conceptual — é uma condição necessária para garantir cuidados mais seguros, integrados e centrados na pessoa. Continuar a ignorá-la significa prolongar um desfasamento entre necessidades e respostas que o sistema já não pode sustentar.
Filipe Macedo é Enfermeiro Gestor da Residência Sénior Sant’Ana do Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira, tendo quase duas décadas de experiência profissional. É formador certificado e especialista em controlo de infecção hospitalar, tendo vários artigos científicos publicados em revistas científicas internacionais com revisão por pares.
Artigo de opinião completo no Healthnews
Com Direção Executiva de Maria Antónia Lisboa e Direção Editorial de Miguel Múrias Mauritti, o HealthNews.pt – Jornalismo de Saúde é uma referência nacional na comunicação em saúde, dando voz a especialistas, profissionais e instituições que constroem diariamente o setor.


