Artigo Técnico

Dia Europeu da Terapia da Fala
A Intervenção do Terapeuta na Disfagia Orofaríngea
e seu Impacto na RNCCI

Por Sílvia Sousa | 6 Março 2025

 

A Intervenção do Terapeuta na Disfagia Orofarínge

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O Dia Europeu da Terapia da Fala, celebrado anualmente a 6 de fevereiro, é um momento para destacar como a Terapia da Fala atua no rastreio, prevenção, avaliação, intervenção e estudo científico das perturbações da comunicação humana, englobando não só todas as funções associadas à compreensão e expressão da linguagem oral e escrita, mas também outras formas de comunicação não verbal. Para além destas áreas, intervém, ainda, ao nível da deglutição (passagem segura de alimentos sólidos e líquidos através da orofaringe de forma a garantir uma nutrição adequada). Estas competências podem estar alteradas por diversos fatores, como lesões cerebrais adquiridas (p.e. acidentes vasculares cerebrais – AVC ou traumatismos cranioencefálicos – TCE) e alterações da estrutura orofacial e laríngea.

A Terapia da Fala pode ser indicada para indivíduos de todas as idades – recém-nascidos, crianças, jovens, adultos ou idosos – com ou sem patologias diagnosticadas, tendo por objetivo geral otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição do indivíduo, melhorando, assim, a sua qualidade de vida (ASHA, 2007).


 

Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI)
e o papel do Terapeuta da Fala nas Perturbações da Deglutição

 

O Terapeuta da Fala é o profissional especializado na perturbação da deglutição (disfagia), exercendo as suas funções juntamente com o utente, família e restantes profissionais de saúde (RCSLT, 2006). Tem como principal objetivo de intervenção a reabilitação da perturbação da deglutição, promovendo a qualidade de vida do utente e da sua família (RCSLT, 2006). É da responsabilidade do Terapeuta da Fala avaliar o utente, realizar terapia direta e fazer ensinos junto do utente e seus familiares para que estes saibam lidar com a disfagia, através de estratégias compensatórias mais apropriadas, dar a conhecer os riscos que ocorrem no processo de deglutição e informar acerca da dieta mais adequada ao doente (Eckman & Roe, 2005).

A Intervenção do Terapeuta na Disfagia Orofarínge

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O Terapeuta da Fala avalia, também, a viabilidade da alimentação por via oral ou a necessidade de se utilizar uma via alternativa à mesma (Eckman & Roe, 2005) e, juntamente com os elementos da equipa multidisciplinar, esclarece o utente e seus familiares acerca das vantagens e desvantagens de cada método alternativo de alimentação, quando esta deixa de ser viável por via oral (Taquemori & Sera, 2008). Para Taquemori (2008), o Terapeuta da Fala é responsável pela “avaliação da qualidade do processo de deglutição de alimentos, líquidos, secreções orais, saliva e medicação desde a cavidade oral, até ao nível faríngeo”. Para tal, pode adequar a postura da cabeça e posicionamento do utente para que este realize uma deglutição segura, adequar a consistência dos alimentos, realizar exercícios activos e estimulações passivas (Taquemori, 2008).

No que concerne aos diagnósticos clínicos que motivam a referenciação para a RNCCI, das etiologias principais, devem-se a doença vascular cerebral aguda mal definida, a hemorragia intracerebral oclusões de artérias cerebrais e hemorragias intracranianas. Sendo que muitos dos casos acima referidos apresentam disfagia orofaríngea imediatamente após três dias após o ictus (Donovan et al., 2013). O AVC é a principal causa de disfagia, onde o grau de gravidade se encontra diretamente associado à extensão e gravidade da lesão neurológica (Hinchey et al., 2005).

Como consequência das lesões, podem ser verificadas alterações da linguagem, como as afasias, alterações de fala, como as disartrias, alterações da comunicação, alterações de voz, como as disfonias e alterações da deglutição, como as disfagias.

A disfagia define-se como uma alteração no processo da deglutição, interferindo na passagem dos alimentos sólidos e líquidos da cavidade oral até ao estômago (Ramsey, Smithard, & Kalra, 2003). As dificuldades de deglutição podem caracterizar-se por um fraco controlo oral do bolo alimentar, escape extra-oral de alimentos sólidos e líquidos, maior tempo de trânsito oral, presença de tosse e/ou engasgos e regurgitação (Armstrong, Jans & MacDonald, 2010). Não se trata de uma doença, mas sim de um sintoma da mesma, e que contribui para o aumento da morbilidade e mortalidade, independentemente da condição clínica da pessoa (Santoro, 2008). A disfagia pode ter como consequências a desnutrição, a desidratação, pneumonia por aspiração, estado de saúde geral comprometido, doença pulmonar crónica, asfixia, podendo levar mesmo até à morte (ASHA, 2004). Consequentemente criam angústia e sofrimento aos doentes e seus familiares, ao mesmo tempo que promovem o isolamento social e a negação de prazeres associados à alimentação (Shaker, 2013; Taquemori & Sera, 2008).

A avaliação, intervenção e ensinos ao utente e seus cuidadores acerca das dificuldades de deglutição é tipicamente assumida pelo Terapeuta da Fala através da implementação de estratégias compensatórias e de reabilitação mais apropriadas, da identificação dos riscos associados à deglutição e no suporte à implementação de uma dieta mais adequada (Eckman & Roe, 2005). Perante um caso de disfagia, cabe a este profissional de saúde adequar a postura para uma deglutição segura, modificar as consistências alimentares, estimular passivamente e realizar exercícios ativos e, em conjunto com os elementos da equipa clínica, encontrar alternativas à alimentação por via oral quando esta deixa de ser segura e eficaz (Taquemori & Sera, 2008).

 

Sílvia Sousa é Terapeuta da Fala no Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira

Artigo originalmente publicado no Linkedin MVFX em 6 de março de 2025

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Informação adicional

 

. Administração Central do Sistema de Saúde – Serviço Nacional de Saúde (2017). Relatório de Monitorização da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).

American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) (2004). Preferred practice patterns for the profession of speech-language pathology.

. Barriguinha, C. (2014). O Terapeuta da Fala nos Cuidados Paliativos: perspetiva dos doentes, familiares e/ou cuidadores informais e equipa de profissionais envolvidos. Dissertação de Mestrado em Cuidados Paliativos. Porto: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

. Bernardo, A., Rosado, J. & Salazar, H. (2010). Trabalho em Equipa, In Barbosa, A. & Neto, I.G. Manual de Cuidados Paliativos. Lisboa, Núcleo de Cuidados Paliativos – Centro de Bioética, Faculdade de Medicina de Lisboa.

. Cabrito, Andreia Vicente (2020). Percepção dos Profissionais das Unidades de Cuidados Continuados Integrados acerca da intervenção do Terapeuta da Fala na pessoa com Disfagia. Projecto elaborado com vista à obtenção do grau de Mestre em Terapia da Fala, na Especialidade de Motricidade Orofacial e Deglutição.