Artigo de Opinião
Criatividade e inovação com propósito
na Misericórdia Vila Franca de Xira
Por Marco de Sousa Nunes | @Healthnews | 21 abril 2026
No dia em que se assinala o Dia Mundial da Criatividade e Inovação (21 de abril), importa ir além da celebração simbólica e questionar o seu verdadeiro significado no contexto das organizações que, diariamente, respondem a necessidades reais das pessoas.
Na área da saúde e do setor social, a criatividade não pode ser confundida com improviso, nem a inovação com tendências passageiras.
Ambas exigem intencionalidade, método e, sobretudo, coragem para romper com modelos instalados que, apesar de bem-intencionados, já não respondem com eficácia à complexidade dos desafios atuais.
As Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) desempenham, historicamente, um papel essencial na coesão social e na garantia de respostas às populações vulneráveis.
No entanto, o contexto mudou.
As exigências são hoje maiores, mais diferenciadas e mais exigentes do ponto de vista técnico, clínico e de gestão.
Persistir exclusivamente em modelos tradicionais pode significar, não raras vezes, limitar o impacto e comprometer a capacidade de resposta.
É neste ponto que a criatividade e a inovação assumem um papel estruturante.
Inovar numa IPSS não é abdicar do seu propósito, é reforçá-lo.
É introduzir uma lógica de planeamento estratégico, de gestão orientada por indicadores, de qualificação das equipas e de diferenciação dos serviços.
É assumir uma abordagem mais próxima de uma organização empresarial, sem perder a sua identidade social, mas ganhando capacidade de escala, sustentabilidade e impacto.
Na Misericórdia Vila Franca de Xira, este caminho não é teórico. É prática consolidada.
Há 463 anos que respondemos às necessidades da comunidade.
Nos últimos anos, e em particular nos últimos quatro, esse compromisso traduziu-se num crescimento muito significativo da instituição, quer na criação de novas respostas, com especial enfoque na área da saúde, quer na expansão da nossa capacidade de intervenção.
Esse crescimento não aconteceu por acaso. Foi, e continua a ser, resultado de uma opção clara de organizar para crescer com consistência. Planeamento, estrutura, exigência na gestão e foco na execução passaram a estar no centro da nossa atuação.
Hoje, a Misericórdia Vila Franca de Xira é também um agente relevante na dinâmica económica local, com impacto direto na criação de emprego qualificado e na fixação de talento. Mas mais importante do que crescer é a forma como se cresce.
A verdadeira inovação que assumimos foi a de romper com o modelo tradicional de gestão de uma IPSS.
Mantendo intacto o nosso propósito social e a missão de garantir acesso à comunidade, passámos a gerir a instituição com uma lógica empresarial. Não na distribuição de resultados, mas na disciplina, na eficiência e na responsabilidade com que utilizamos os recursos.
Este modelo assenta em três pilares fundamentais:
- sustentabilidade operacional;
- valorização das pessoas: as nossas equipas e aqueles de quem cuidamos;
- garantia de acesso a cuidados de saúde de efetiva qualidade para todos.
Esta visão implica, necessariamente, uma mudança de paradigma. Nenhuma entidade, isoladamente, conseguirá responder de forma eficaz aos desafios atuais.
A construção de respostas verdadeiramente impactantes exige a mobilização de todos os stakeholders relevantes — setor social, setor público e setor privado — numa lógica de complementaridade e não de competição.
Importa, aliás, reconhecer com naturalidade que os diferentes setores operam com lógicas distintas, seja na geração de valor económico, na sustentabilidade financeira ou na missão social que prosseguem.
Essa diversidade não é um obstáculo. É, pelo contrário, uma condição essencial para construir respostas mais completas, acessíveis e robustas.
Desde sempre, as comunidades evoluíram com base nesta capacidade de articulação entre diferentes contributos, colocando o foco no que verdadeiramente importa: responder às necessidades das pessoas.
Criatividade, neste contexto, é a capacidade de desenhar novas formas de colaboração.
Inovação é a concretização dessas formas em modelos operacionais que funcionam no terreno e produzem resultados mensuráveis.
Mais do que ações isoladas, o que está em causa é a capacidade de execução consistente. A inovação e o espírito que temos vindo a consolidar permitem às nossas equipas manterem-se focadas nos objetivos definidos, mas simultaneamente abertas à criação contínua de novos projetos, novas ideias e, acima de tudo, mais acesso para a nossa comunidade.
Na Misericórdia Vila Franca de Xira, a criatividade e a inovação deixaram de ser conceitos abstratos. São, hoje, parte integrante da forma como atuamos. Estão presentes nas decisões, nos processos e na forma como projetamos o futuro.
É esta cultura que nos permite encarar o caminho da instituição, e da comunidade que servimos, com maior ambição e otimismo.
Celebrar a criatividade e a inovação é, por isso, reconhecer que o setor social tem hoje uma oportunidade e uma responsabilidade acrescida. A de liderar a mudança, mantendo o seu propósito intacto, mas elevando a sua forma de atuar a um novo patamar:
- exigência
- eficiência
- relevância.
No final, é isso que verdadeiramente importa. Garantir que cada pessoa tem acesso à resposta de saúde de que necessita, no momento certo, com qualidade e dignidade.
Porque, no setor social, particularmente, inovar não é opcional, é a única forma de garantir que ninguém fica sem resposta.
Marco de Sousa Nunes é Diretor Geral Executivo da Misericórdia Vila Franca de Xira
Artigo de opinião completo no Healthnews
Com Direção Executiva de Maria Antónia Lisboa e Direção Editorial de Miguel Múrias Mauritti, o HealthNews.pt – Jornalismo de Saúde é uma referência nacional na comunicação em saúde, dando voz a especialistas, profissionais e instituições que constroem diariamente o setor.

