Artigo Técnico

Desprescrição em Cuidados Continuados
Uma Estratégia Essencial para o Cuidar com Sentido

Por Nelson Pereira | 10 Maio 2025
Nelson Pereira, médico. Desprescrição

Clicar na imagem

Os Cuidados Continuados visam prestar cuidados de saúde e apoiar socialmente, de uma forma continuada e integrada, pessoas de qualquer faixa etária, que se encontrem em situação de dependência, na sequência de uma doença aguda ou com necessidade de prevenção de agravamento de doenças crónicas.

O foco principal dos Cuidados Continuados Integrados são a recuperação global da pessoa, promovendo sua reabilitação, autonomia e melhorando a sua funcionalidade, de forma a promover a sua reintegração na família e na sociedade (1).

No contexto dos Cuidados Continuados onde a complexidade clínica e a fragilidade dos doentes são uma constante, é urgente repensar o paradigma tradicional da prescrição farmacológica. A desprescrição – definida como o processo sistemático de identificação e descontinuação de fármacos quando os seus danos reais ou potenciais superam os seus benefícios, tendo em conta o conjunto de objetivos dos cuidados do utente em questão – emerge como uma prática clínica ética, centrada na pessoa e com forte impacto na qualidade de vida (2).

 

A realidade da polimedicação nos Cuidados Continuados

A grande parte dos utentes em unidades de cuidados continuados são idosos com múltiplas comorbilidades, frequentemente expostos à polimedicação crónica. A polimedicação pode ser definida como a toma regular de cinco ou mais fármacos concomitantemente, incluindo os medicamentos de venda livre. Os estudos revelam que muitos destes doentes em cuidados continuados tomam entre 5 a 10 fármacos diariamente, por vezes até mais, o que aumenta o risco de interações medicamentosas, efeitos adversos, quedas, delirium, perda de apetite, hospitalizações evitáveis e até morte prematura (3)(4).

 

O que é a desprescrição?

A desprescrição não é sinónimo de abandono terapêutico. Pelo contrário, trata-se de um ato clínico estruturado, fundamentado na evidência científica, que visa:

  • Melhorar a relação benefício-risco dos fármacos em uso;
  • Reduzir a carga medicamentosa;
  • Promover o conforto e a segurança do doente;
  • Reforçar a personalização dos cuidados em função dos objetivos terapêuticos individuais (5).

 

Desprescrever é, assim, um gesto de cuidado responsável, que exige conhecimento clínico, comunicação empática e um compromisso com a ética da proporcionalidade terapêutica.

 

Quando e porquê desprescrever?

Nos Cuidados Continuados, a desprescrição é particularmente relevante quando:

  • Os objetivos terapêuticos mudam (por exemplo, de curativos para paliativos);
  • O prognóstico de vida é limitado;
  • O fármaco não está a produzir um benefício clínico claro;
  • O risco de efeitos adversos supera o seu potencial benefício;
  • O doente expressa vontade de reduzir ou simplificar a terapêutica (6).
  • É essencial recordar que muitos dos ensaios clínicos que sustentam a prescrição de fármacos são realizados em populações mais jovens e saudáveis, o que limita a aplicabilidade dos seus resultados a doentes geriátricos, frágeis ou em fim de vida (7).

 

Barreiras à desprescrição

Apesar dos benefícios evidentes, a desprescrição enfrenta várias barreiras, nomeadamente:

  • O receio de provocar descompensações;
  • A ausência de tempo para uma revisão terapêutica detalhada;
  • A pressão de práticas clínicas enraizadas no “acrescentar” em vez do “repensar”;
  • Sensação de “desinvestimento” por parte do seu médico
  • Dificuldades na comunicação médico-doente
  • A falta de formação específica em desprescrição durante o ensino médico e de enfermagem (8)(9).

Ultrapassar estas barreiras exige uma mudança de cultura clínica, centrada na pessoa, e não na doença.

 

Casos práticos: desprescrição em ação

Estatina em doente com demência avançada ou com doença terminal: Qual o benefício de continuar a tomar uma estatina num doente acamado, com demência severa e prognóstico limitado? As estatinas são medicamentos que têm benefício apenas a longo termo (tempo estimado para benefício superior a 2 anos). Além disso, os utentes em fase final de vida muitas vezes têm anorexia, perda de peso, má-nutrição, pelo que a redução do colesterol perde sentido, e os efeitos adversos destes fármacos no fim de vida são frequentes. Vários estudos sugerem que a interrupção nestes casos não só é segura, como pode melhorar a qualidade de vida (10).

Anti-hipertensores: O controlo apertado da pressão arterial tem apenas benefício a longo prazo, o que torna discutível estes fármacos em doentes com idade muito avançada. Por outro lado, o risco de hipotensão sintomática induzida por esta classe de medicamentos no final da vida – tonturas, síncope, quedas, fadiga – é maior (11).

Inibidores da bomba de protões usados cronicamente sem indicação atual: Muitos doentes iniciam terapêutica antiácida no contexto de hospitalizações antigas e continuam a tomá-la indefinidamente. Estes fármacos, embora úteis, estão associados a défices de magnésio, osteoporose e infeções (12).

Hipoglicemiantes em doentes muito idosos: Controlos glicémicos excessivamente apertados em idosos podem aumentar o risco de hipoglicemias graves, com consequências devastadoras. O risco de hipoglicemia também aumenta com a existência de anorexia, diminuição da ingestão de alimentos e perda de peso, comuns nestes doentes. Nestes casos, simplificar o regime terapêutico e aceitar valores de glicemia mais elevados pode ser mais seguro (13).

 

Desprescrever é cuidar com sentido

Num tempo em que a medicina se debate com os limites da tecnologia e com a necessidade de humanizar os cuidados e em centrá-los na pessoa, a desprescrição surge como uma prática clínica que respeita a integridade do utente. Mais do que retirar comprimidos, é um gesto terapêutico e ético que visa aliviar, confortar e respeitar a evolução natural da vida humana.

Num contexto como os Cuidados Continuados, onde o foco deve ser a dignidade e o bem-estar global da pessoa, a desprescrição é um instrumento fundamental do cuidar com sentido.
Para este processo, a colaboração com a família e cuidadores é igualmente crucial. A explicação clara dos motivos para a suspensão de determinados medicamentos pode prevenir mal-entendidos e reforçar a confiança no plano terapêutico.

 

Nelson Pereira é Médico da Unidade de Saúde no Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira

Artigo originalmente publicado no Linkedin MVFX em 10 de maio 2025

____________________

Informação adicional

 

  1. Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados 
  2. Scott IA, Hilmer SN, Reeve E, et al. Reducing Inappropriate Polypharmacy: The Process of Deprescribing. JAMA Intern Med. 2015;175(5):827–834.
  3. Gonçalves F. Deprescription in Advanced Cancer Patients. Pharmacy (Basel). 2018 Aug 21;6(3).
  4. Scott IA, Anderson K, Freeman CR, Stowasser DA. First do no harm: a real need to deprescribe in older patients. Med J Aust. 2014 Oct 6;201(7):390-2.
  5. Scott IA, Hilmer SN, Reeve E, et al. Reducing Inappropriate Polypharmacy: The Process of Deprescribing. JAMA Intern Med. 2015;175(5):827–834.
  6. Reeve E, Shakib S, Hendrix I, Roberts MS, Wiese MD. Review of deprescribing processes and development of an evidence-based, patient-centred deprescribing process. Br J Clin Pharmacol. 2014;78(4):738–747.
  7. Hilmer SN, Gnjidic D. The effects of polypharmacy in older adults. Clin Pharmacol Ther. 2009;85(1):86–88.
  8. Gonçalves F. Deprescription in Advanced Cancer Patients. Pharmacy (Basel). 2018 Aug 21;6(3).
  9. Scott IA, Anderson K, Freeman CR, Stowasser DA. First do no harm: a real need to deprescribe in older patients. Med J Aust. 2014 Oct 6;201(7):390-2.
  10. Kutner JS, Blatchford PJ, Taylor DH Jr, et al. Safety and Benefit of Discontinuing Statin Therapy in the Setting of Advanced, Life-Limiting Illness. JAMA Intern Med. 2015;175(5):691–700.
  11. Stinson MJ, Gurevitz S, Carrigan A. Deprescribing at the end of life in older patients. JAAPA. 2019 Jun 5
  12. Reimer C. Safety of long-term PPI therapy. Best Pract Res Clin Gastroenterol. 2013;27(3):443–454.
  13. Lipska KJ, Montori VM. Glucose Control in Older Adults With Diabetes Mellitus — More Harm Than Good? JAMA Intern Med. 2013;173(14):1306–1307.