Artigo Técnico
31 de Março — Dia Nacional do Doente com AVC
Celebrar a sobrevivência. Exigir qualidade na recuperação.
Por Bruno Pereira | @Healthnews | 31 março 2026
O Dia Nacional do Doente com AVC é, antes de mais, um momento de reconhecimento.
Nas últimas décadas, a resposta na fase aguda evoluiu de forma significativa. A organização das Unidades de AVC e os protocolos de atuação rápida reduziram mortalidade e melhoraram o prognóstico imediato. Salvar vidas é uma conquista estrutural do sistema de saúde. Mas sobreviver não é sinónimo de recuperar.
A incapacidade funcional aos três, seis ou doze meses depende, em grande medida, da qualidade, intensidade e continuidade da reabilitação. A evidência internacional demonstra que intervenção orientada à tarefa, suficientemente intensiva e estruturada, influencia diretamente os resultados funcionais após AVC (1, 2, 3). Em Portugal, no âmbito da tese de doutoramento “Percursos de Reabilitação: como construir uma política de tratamento do AVC”, que acompanhou 460 sobreviventes, verificou-se que cerca de 70% não tiveram acesso a níveis adequados de intensidade terapêutica. Aproximadamente 70% desconheciam o seu prognóstico funcional no momento da alta hospitalar e, um ano após o evento, a qualidade de vida permanecia significativamente inferior à da população geral (4). O estudo demonstrou ainda que percursos de reabilitação distintos produzem resultados diferentes, evidenciando desigualdades estruturais no acesso e na organização dos cuidados.
Entre o hospital e o regresso ao domicílio existe uma etapa decisiva. É nesse período que se consolidam ganhos motores, se treinam atividades de vida diária, se previnem complicações e se estrutura a autonomia futura. A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) desempenha um papel absolutamente central nesta fase. Para muitos sobreviventes de AVC, é o elo que transforma estabilidade clínica em recuperação funcional. A lógica da “Via Verde AVC” deveria ser prolongada para além do hospital, garantindo circuitos dedicados até aos três a seis meses após o evento. Criar percursos específicos de AVC dentro da RNCCI — com critérios claros de admissão, objetivos funcionais definidos e equipas com formação diferenciada em neuroreabilitação — pode reduzir desigualdades e aumentar intensidade terapêutica nos momentos críticos da recuperação. Unidades dedicadas à intervenção em AVC, com componente técnica especializada, equipamentos adequados e reforço formativo contínuo, permitiriam concentrar experiência clínica, melhorar resultados e garantir maior homogeneidade assistencial.
A transição hospital–RNCCI continua a ser um ponto sensível. A inclusão sistemática de avaliação motora e funcional realizada por fisioterapeuta e terapeuta ocupacional no momento da referenciação pode melhorar a adequação do encaminhamento, definir objetivos terapêuticos claros e estratificar a intensidade necessária. Diminuir a dispersão de itinerários, definir percursos diferenciados para diferentes perfis de AVC e assegurar intervenção multiprofissional intensiva nos primeiros três a seis meses são medidas coerentes com a evidência internacional (1, 2, 3) e com os dados nacionais (4).
A Organização Mundial da Saúde defende que a reabilitação deve estar integrada ao longo de todo o percurso da doença (5). No contexto da prescrição de reabilitação em ambulatório, a organização é frequentemente centrada em circuitos administrativos e observa-se uma forte padronização no número de sessões prescritas (6), refletindo um modelo ainda predominantemente orientado para o volume de atos e menos para resultados funcionais mensuráveis. O percurso habitual — consulta em cuidados de saúde primários, prescrição para MFR com avaliação médica subsequente, prescrição de um número fixo de sessões e ainda tempos de espera prolongados — introduz atrasos que penalizam a janela crítica de recuperação. Acresce, muitas vezes, um modelo assistencial em que o profissional partilha simultaneamente vários utentes, diluindo intensidade terapêutica e individualização da intervenção.
No AVC, tempo é função. A intensidade e a especificidade da prática orientada à tarefa não são detalhes organizacionais. São determinantes prognósticos (1–3). Modelos excessivamente padronizados, baseados em pacotes de sessões pré-definidos, não refletem a heterogeneidade clínica dos sobreviventes de AVC nem respondem às necessidades dinâmicas da recuperação. Simplificar o acesso à fisioterapia, terapia ocupacional e terapia da fala não é uma questão corporativa. É uma estratégia de proteção da função e da participação, enquanto determinantes da autonomia e da qualidade de vida.
Celebrar o 31 de março é reconhecer o sucesso da resposta aguda. Mas deve ser também um compromisso com aquilo que acontece depois. Se o hospital salva vidas, a RNCCI e os centros de reabilitação especializado estruturam a recuperação, e o ambulatório consolida autonomia e participação. A cadeia de cuidados só é forte se todos os elos forem consistentes. Enquanto país, já demonstrámos capacidade para organizar a fase aguda do AVC.
O próximo passo é garantir circuitos dedicados, continuidade estruturada e intervenção intensiva nos meses que verdadeiramente determinam o desfecho funcional.
Porque no AVC, salvar vidas é essencial. Mas devolver autonomia é o que define o verdadeiro sucesso do nosso sistema de saúde.
Bruno Pereira é Fisioterapeuta há 20 anos, Professor Universitário e Coordenador da Fisioterapia do Campus de Saúde da Misericórdia Vila Franca de Xira
Artigo originalmente publicado no Healthnews em 31 de março de 2026
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Informação adicional
Referências — Vancouver
- National Clinical Guideline Centre. National clinical guideline for stroke. 2023.
- European Stroke Organisation. Guidelines for stroke rehabilitation. 2025.
- European Stroke Organisation. Stroke Action Plan for Europe 2018–2030.
- Barbosa PM. Percursos de Reabilitação: como construir uma política de tratamento do AVC [tese de doutoramento]. Porto: Universidade do Porto – Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto; Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; 2024.
- World Health Organization. Rehabilitation 2030: A Call for Action. Geneva: WHO; 2017.
- Ribeiro S, Fróis AT, Mendes J, Santos J. Caracterização da prescrição de medicina física e de reabilitação em unidades de saúde familiar do Norte de Portugal. Rev Port Med Geral Fam. 2023;39:273-82


